Luto pela minha mãe: como acolher a saudade e cuidar de si

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Se você perdeu sua mãe e chegou até este texto procurando algum tipo de orientação ou acolhimento, queremos começar dizendo que sentimos muito pela sua perda.

Talvez ainda esteja tudo muito recente. Talvez já tenha passado algum tempo e a saudade apareça de formas diferentes. Pode ser que você queira falar sobre ela o tempo todo ou que ainda seja difícil encontrar palavras. Cada relação entre mãe e filho tem uma história própria e, por isso, cada ausência também é vivida de um jeito.

Aqui, não queremos dizer como você deveria se sentir nem quanto tempo esse processo deve levar. A proposta é fazer companhia por alguns minutos, explicar algumas experiências que podem aparecer no luto e lembrar que você não precisa encontrar uma maneira perfeita de passar por esse momento.

Por que perder a mãe pode mexer com tantas partes da nossa história?

Uma mãe pode ocupar muitos lugares ao longo da vida. Pode estar nas lembranças da infância, nas tradições familiares, nos telefonemas, nas receitas, nos conselhos, nas pequenas frases que ficaram guardadas e até em hábitos que só percebemos depois que vieram dela.

Por isso, a saudade nem sempre aparece apenas como tristeza pela ausência atual. Ela pode surgir ao olhar uma fotografia antiga, visitar um lugar conhecido, preparar uma comida ou simplesmente pensar em algo que você gostaria de contar a ela.

Também é importante lembrar que nem toda relação entre mãe e filho foi simples ou próxima. Algumas histórias tiveram distâncias, conflitos, reconciliações ou assuntos que ficaram sem uma conclusão. Nesses casos, a morte pode despertar sentimentos igualmente complexos.

Não existe uma relação ideal que determine como será o luto. A forma como essa ausência é vivida também pode estar relacionada à história que vocês construíram, aos vínculos, às experiências compartilhadas e até ao que ficou sem ser dito. 

O  Ministério da Saúde também destaca que o luto é uma experiência individual, que pode ser vivida de diferentes maneiras e não segue um tempo determinado. Por isso, comparar a própria experiência com a de outras pessoas nem sempre ajuda a compreender o que se está vivendo. 

E quando a mãe partiu depois de uma doença?

Quando houve uma doença prolongada, talvez você já estivesse vivendo muitas mudanças antes da despedida.

Consultas, tratamentos, cuidados e alterações na rotina podem ter ocupado bastante espaço. Em alguns momentos, talvez existisse esperança. Em outros, preocupação. E é possível que vários sentimentos tenham aparecido ao mesmo tempo.

Para algumas pessoas, esse período também envolve o chamado luto antecipatório, quando sentimentos relacionados à possibilidade da perda começam a aparecer antes da morte. Isso não acontece da mesma forma com todos e não significa que a despedida posterior será necessariamente mais fácil. 

Depois da morte, algumas pessoas sentem uma saudade intensa. Outras também percebem certo alívio ao saber que a mãe já não está passando por tratamentos ou desconfortos. Há ainda quem fique pensando se poderia ter feito algo diferente.

Se isso acontece com você, tente não transformar cada sentimento em uma pergunta sobre o quanto amava sua mãe.

O carinho por alguém não é medido pela forma como reagimos à sua morte.

O período que antecedeu a perda já pode ter sido emocionalmente exigente. Depois dela, pode ser necessário algum tempo para perceber tudo o que aconteceu.

Quando tudo aconteceu de repente

Quando a morte é inesperada, pode haver uma sensação de que a vida mudou rápido demais.

Às vezes, ficam mensagens que você ainda esperava responder, compromissos no calendário, objetos nos mesmos lugares e a lembrança de uma conversa que parecia apenas mais uma conversa comum.

Nos primeiros momentos, algumas pessoas choram. Outras ficam mais quietas, sentem uma espécie de entorpecimento ou têm dificuldade até de acreditar no que aconteceu. Há quem consiga conversar sobre a mãe desde o início e quem precise de mais tempo para assimilar a perda. 

Nenhuma dessas reações, isoladamente, diz quanto aquela relação significava.

Se você percebe que não consegue chorar durante o luto, por exemplo, isso não significa que esteja sentindo menos. O choro é apenas uma das muitas maneiras pelas quais as emoções podem aparecer.

Quando a saudade também é do que ainda seria vivido

Talvez você tenha perdido sua mãe em uma fase em que imaginava compartilhar muitas outras coisas com ela.

Pode haver vontade de contar uma novidade, pedir uma opinião ou tê-la presente em uma comemoração. Às vezes, a saudade aparece justamente nesses acontecimentos cotidianos.

Uma formatura, um casamento, a chegada de uma criança à família, um aniversário ou mesmo um domingo podem fazer a ausência parecer mais presente outra vez.

Sentir a ausência com mais intensidade em determinados momentos não significa que todo o caminho percorrido tenha sido perdido. A relação com a saudade pode mudar ao longo do tempo: alguns períodos podem ser mais tranquilos, enquanto datas, acontecimentos ou lembranças específicas podem tornar a ausência mais presente novamente. 

Em nosso conteúdo sobre como lidar com a saudade, falamos sobre essas diferentes formas de continuar lembrando de alguém importante sem precisar apagar a ausência.

Preciso passar pelas fases do luto pela minha mãe?

Não. O luto não funciona como uma sequência de etapas que precisam ser cumpridas.

Talvez você já tenha ouvido falar em negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação. Algumas dessas experiências podem aparecer durante o luto , mas não existe uma ordem obrigatória nem a necessidade de passar por todas elas .

É possível acordar em um dia mais tranquilo e sentir muita saudade no seguinte. Uma lembrança pode trazer lágrimas e, algum tempo depois, a mesma história provocar um sorriso.

Por isso, os estágios do luto são melhor compreendidos como uma referência para algumas experiências possíveis, não como um calendário emocional.

Você não precisa observar o próprio luto procurando descobrir em qual “fase” está.

Como cuidar de si quando a saudade está mais presente?

Talvez cuidar de si agora tenha um significado diferente daquele que tinha antes.

Pode ser aceitar que alguém prepare uma refeição para você. Dar uma volta curta. Descansar um pouco. Atender a ligação de alguém querido. Ou simplesmente perceber que hoje não é um dia em que você deseja conversar muito.

Dependendo do que fizer sentido para você neste momento, algumas  atitudes podem oferecer algum conforto:

  • estar perto de pessoas com quem você se sente à vontade;
  • aceitar ajuda para algumas tarefas;
  • respeitar a necessidade de descanso;
  • falar sobre sua mãe quando sentir vontade;
  • guardar fotografias, cartas, receitas ou outros objetos especiais;
  • continuar alguma tradição que tenha significado para você;
  • respeitar os dias em que preferir apenas ficar mais quieto.

Não é necessário transformar imediatamente as lembranças em homenagens.

Talvez você queira mexer nas coisas da sua mãe logo. Talvez ainda não consiga. Talvez goste de olhar fotografias ou prefira deixá-las guardadas por algum tempo.

Você não precisa se apressar para decidir o que fazer com objetos, fotografias e outras lembranças da sua mãe. 

As memórias afetivas podem encontrar diferentes lugares na vida conforme os dias passam.

Posso voltar a sorrir sem estar esquecendo minha mãe?

Pode. Para algumas pessoas, voltar a experimentar momentos de alegria depois de uma perda pode causar estranhamento ou até trazer dúvidas sobre o que isso significa. 

Depois de um período difícil, pode acontecer de você rir de alguma coisa, aproveitar um passeio ou perceber que teve um dia bom. Para algumas pessoas, essa sensação vem acompanhada de estranhamento.

Mas viver momentos bons não diminui o lugar que sua mãe teve na sua história.

A memória dela pode continuar nas coisas que você aprendeu, nas histórias que conta, nas expressões que herdou, nos valores que compartilhou ou simplesmente no carinho com que determinadas lembranças aparecem.

Saudade e alegria não precisam disputar espaço.

Continuar vivendo não exige esquecer.

E quando conversar com alguém pode fazer bem?

Alguns dias podem pedir mais recolhimento. Em outros, talvez seja bom ter alguém por perto.

Pode ser uma pessoa da família, um amigo, alguém que também conhecia sua mãe ou simplesmente alguém em quem você confia.

Em situações de luto em família, vale lembrar que irmãos e outros familiares podem estar vivendo a mesma morte de maneiras bastante diferentes. Um pode querer falar muito. Outro talvez prefira silêncio. Isso não significa que um esteja sofrendo mais do que o outro.

Se, em algum momento, você sentir vontade de conversar com alguém que tenha preparo para acolher esse tipo de experiência, a terapia do luto também pode ser uma possibilidade. Ter um espaço reservado para falar sobre sua mãe, sobre a saudade e até sobre sentimentos contraditórios pode ajudar a compreender melhor o que você está vivendo. 

Buscar ajuda profissional merece atenção especial quando o sofrimento permanece muito intenso e interfere de forma significativa na rotina, no autocuidado, no trabalho, nos estudos ou nas relações. Pensamentos de morte ou de suicídio também exigem ajuda imediata de profissionais e serviços de saúde.

Algumas lembranças encontram um novo lugar com o tempo

Não sabemos como será a saudade daqui a alguns meses ou anos. E você também não precisa descobrir isso agora.

Talvez algumas lembranças continuem trazendo lágrimas. Outras podem, aos poucos, começar a vir acompanhadas de carinho, gratidão ou até de uma história divertida que você terá vontade de contar novamente.

Nada disso precisa apagar a falta que ela faz.

Nós, do Grupo Primaveras, acompanhamos  famílias em diferentes momentos da despedida e acreditamos que o acolhimento também pode continuar depois da cerimônia. . Cada pessoa encontra, ao longo do tempo, maneiras próprias de conviver com a ausência e preservar as lembranças de quem foi importante. 

Por isso, também acreditamos na importância de oferecer espaços em que seja possível simplesmente conversar e ser ouvido.

Se você sente que conversar e compartilhar um pouco do que está vivendo pode fazer sentido neste momento, conheça nossas iniciativas de apoio ao enlutado. Esse pode ser um espaço de escuta e acolhimento para a sua experiência. 

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura o luto pela mãe?

Não existe um prazo único para o luto pela mãe. A intensidade da saudade e de outras emoções pode mudar ao longo dos meses e dos anos, e algumas lembranças podem continuar significativas por toda a vida. Mais importante do que comparar o tempo do próprio luto com um prazo é observar como essa experiência está afetando o bem-estar e a vida cotidiana. 

É normal não conseguir chorar depois de perder a mãe?

Sim. Nem todas as pessoas expressam o luto por meio do choro. Algumas choram bastante, outras pouco e algumas podem passar períodos sem conseguir chorar. Isso, por si só, não significa sentir menos amor, saudade ou sofrimento. 

Como acolher alguém que perdeu a mãe?

Estar presente já pode ajudar muito. Ouça quando a pessoa quiser conversar, respeite quando ela preferir silêncio e, se puder, ofereça ajuda em pequenas coisas do dia a dia. Não é necessário encontrar uma frase perfeita.

É normal sentir saudade da mãe mesmo depois de muito tempo?

Sim. Algumas lembranças podem continuar importantes durante toda a vida. A saudade pode mudar de intensidade e significado com o tempo, mas não precisa desaparecer para que a vida continue.

O que fazer nas primeiras datas especiais sem a mãe?

Não existe uma forma certa de passar pelas primeiras datas especiais sem a mãe. Algumas pessoas preferem fazer uma homenagem ou estar perto da família; outras sentem necessidade de viver aquele dia de maneira mais reservada. Também é possível mudar de ideia conforme a data se aproxima. O importante é não transformar esse momento em uma obrigação de celebrar, homenagear ou demonstrar a saudade de determinada maneira. 

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